Futebol de meio expediente

por: Margarete Azevedo

É extremamente solutar a reunião de amigos para a prática de uma boa pelada, mas é importante saber que também existem riscos

É quase um ritual sagrado. Pelo menos uma vez por semana, em todos os cantos do País, um bando de homens das mais variadas idades, profissões e religiões se reúne para uma pelada. A paixão é tamanha que eles, mesmo lesionados, costumam dar uma “passadinha” para apoiar moralmente os companheiros e, claro, ficar para a cervejada do pós-jogo. A mulherada, evidentemente, torce o nariz, mas não há cara feia e até mesmo discussão de relação que impeça o congraçamento dos marmanjos. A boa notícia, para elas, é que nessas ocasiões eles, realmente, não têm olhos para outra coisa, que não seja a bola. Aliás, sequer apreciam a presença feminina nesses locais, pois sentem-se “acanhados”, a ponto de não conseguirem manifestar toda a energia dos outros dias.

Para eles, é importante saber que, na maioria das vezes, esse futebol costuma trazer mais benefícios do que riscos. É sabido, cientificamente, que bons amigos ajudam a viver mais e melhor. Além disso, a prática regular do esporte é eficaz para a hipertensão, ou seja, ajuda na diminuição dos riscos cardiovasculares, melhora a musculatura, contribui na manutenção e perda de peso, possibilita a liberação de endorfinas que causa sensação de bem-estar, entre outras vantagens. Nos casos em que a pessoa tem uma patologia prévia, como um problema cardíaco, segundo o ortopedista Ricardo Galotti, do Departamento de Futebol do Corinthians, a prática deve ser controlada.

Indicada pelo menos duas vezes por semana, a prática deve receber alguns cuidados por parte daqueles que não conseguem manter essa média, conforme o médico. “Partindo da premissa de que uma vez é melhor do que nada, é importante que a pessoa não se esforce exageradamente. Caso o indivíduo seja competitivo, sem ter condições para isso, o futebol torna-se extremamente perigoso. Preconizamos meia hora de atividade física. É fundamental que seja feito alongamento anterior, caso contrário, a pessoa pode se machucar”, orienta.

Diferentemente da maioria dos esportes, o futebol não tem movimentos previamente definidos, o que leva cada atleta, de seis em seis segundos, a fazer um movimento inesperado. “O jogador está de um lado, a bola vai para o outro. Ele vira, salta, dispara. Não segue uma sequência predeterminada. O treinamento específico para o futebol é algo praticamente impossível”, comenta o ortopedista Moisés Cohen, professor do Departamento de Ortopedia e Traumatologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Análise geral

Segundo Cohen, é preciso passar por uma avaliação clínica prévia, para determinar as condições de saúde. Caso a pessoa nunca tenha jogado ou possua pouca habilidade com o esporte, está sujeita a ter mais lesões, principalmente, devido aos movimentos rotacionais. “Nos dias atuais, os pisos sintéticos predispõem também a lesões. Por mais que se tente convencer o grande público de que o piso é macio, emborrachado, especial, o futebol não é um esporte de salto.” A pessoa salta uma vez ou outra; não é um gesto específico. O importante é que o pé deslize bem. Como esses pisos não permitem isso, as lesões ocorrem de forma muito mais frequente no futebol do que em outros esportes.

A avaliação ortopédica e cardiológica, conforme Galotti, tem o objetivo de verificar a presença de alguma enfermidade que ainda não se manifestou e pode surgir em caso de esforço. É importante fazer uma análise geral do paciente para que ele pratique a atividade com o menor risco possível. “Nos casos em que a pessoa tem um problema cardíaco prévio, o futebol aumenta muito a frequência cardíaca, e pode levar a outros problemas mais sérios, até mesmo a óbito. Quando ela tem problemas ortopédicos graves, por exemplo, pseudoartroses em ossos (não consolidação de uma fratura), de articulação de quadril ou de joelho, a prática da modalidade não traz benefícios”, expõe o ortopedista.

Ao contrário do que se possa imaginar, os riscos na prática recreativa são semelhantes ao da profissional, embora a carga de treino seja superior no segundo grupo. As contusões são os problemas mais frequentes, seguidas pelas lesões musculares, tendinites e entorses de tornozelo e joelho. No futebol recreativo, as lesões musculares, de ligamento, de menisco acon- tecem devido ao despreparo, segundo Galotti.

Como o futebol é predominantemente anaeróbico, a pessoa trabalha tiros rápidos e curtos. Quem não está acostumado pode primeiramente ter uma lesão muscular ou uma tendinite, principalmente de joelho ou de tornozelo. Outro cuidado que deve ser tomado é com o tipo de calçado utilizado. “Se a pessoa usar uma chuteira em um piso que não é adequado, ela pode torcer o tornozelo ou ter inflamações na sola do pé”, acrescenta o médico do Corinthians.

Repetições

Como é previsível, em ano de Copa do Mundo surgem adaptações e invencionices que tentam atrair as pessoas para as academias de ginástica. As aulas têm coreografias inspiradas nos movimentos do futebol, embaixadinhas, pedaladas, cabeceios, dribles, entre outros. O maior risco ao “encarar” uma aula dessas é de sair com uma lesão, exatamente pela falta de preparo.

As atividades que envolvem cabeceios, dribles, chutes trabalham a coordenação motora e o equilíbrio, habilidades pouco trabalhadas na musculação, por exemplo. “Os exercícios de repetição não têm somente a função educativa, como de aperfeiçoamento da técnica”, frisa Galotti. Na sua opinião, mesmo para fazer repetições é preciso condicionamento físico-muscular prévio. “Não adianta a pessoa querer chutar 60 bolas por dia se o seu músculo não está preparado. Ela vai se machucar. São necessários de dois a três meses para estar razoavelmente condicionada.”

Na avaliação de Cohen, com os conhecimentos atuais da biomecânica e a própria evolução dos educadores e preparadores físicos, é possível realizar um trabalho de resistência não só da condição aeróbica, mas também da resistência propriamente dita. “Isso é possível não só com equipamentos, mas com determinados tipos de treinamentos de propriopercepção, por exemplo, da mudança inesperada de direção ou correr em terrenos irregulares. Isso de fato vai dar melhora ao rendimento dessa pessoa”, diz. A propriopercepção implica na capacidade do atleta “perceber” o próprio corpo, e conseguir relacionar bem o equilíbrio de seus movimentos/deslocamento e o ambiente da prática de seu esporte.

Outra questão levantada pelos médicos vem após o jogo em si. É comum os “atletas” se reunirem em torno de um churrasco ou feijoada regado com muita cerveja ou outras bebidas alcoólicas. Segundo eles, ao jogar futebol, a pessoa acelera o metabolismo. Ela deveria esperar um pouco para se alimentar. O fato de perder bastante líquido faz muitos saciarem a sede ingerindo álcool, o que não é recomendado. O ideal é tomar água de coco, isotônico ou mesmo água para repor o que perdeu. “Quando a pessoa sua, perde sódio, potássio, cálcio, magnésio e vários eletrólitos. Ela tem uma reposição melhor ingerindo isotônicos ou água de coco do que simplesmente água”, finaliza Galotti.