Corações Corintianos
Dois livros recém lançados celebram o centenário do Corinthians e trazem parte da história e dos bastidores do clube nos últimos anos
Um é conhecido por sua militância política, vereador paulistano há quatro gestões e um dos líderes do PMDB em São Paulo. O outro também é notório homem público, ocupando há vários anos a presidência do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo. Em comum, Antonio Goulart e Antonio Roque Citadini professam desde a mais tenra idade o corintianismo, uma espécie de religião que arregimenta, segundo pesquisas recentes, mais de 30 milhões de brasileiros. Nada mais natural, portanto, que tenham aproveitado, sem nenhuma sombra de oportunismo, o ano do centenário do Sport Club Corinthians Paulista para lançar cada um deles um livro alusivo à comemoração.
O livro de Goulart leva o nome de Haja coração – 100 Anos de Timão, quase um desabafo de um torcedor roxo e doente, que até o seu celular tem quatro números que remetem ao ano da fundação do Corinthians, 1910. São 276 páginas, ricamente ilustradas por 123 fotos, que trazem histórias corintianas e de corintianos, sem nenhuma conotação política ou intenção de criticar seja lá o que for, apenas celebrar, conforme o autor. O preço de capa é de R$ 49,90. Ele abriu a palestra de lançamento, no auditório do Museu do Futebol, em São Paulo, dizendo que em seus 56 anos de vida nunca se viu torcendo por outro time que não fosse o Corinthians.
Mineiro de Vargem Bonita, região das nascentes do Rio São Francisco, Antonio Goulart chegou a São Paulo com a família em 1968, aos 13 anos, e foi morar em Santo André, ABC Paulista. Coube a Gino, dono de um armazém vizinho de sua casa, o papel de introduzi-lo no universo corintiano. “Eu era muito caipira. Foi ele que me levou pela primeira vez ao Parque São Jorge. Quando vi a sala de troféus, fiquei louco.” Naqueles anos 60, 70, segundo Goulart, a fase corintiana era muito ruim, mas ele não perdia um jogo no Pacaembu. Nos times daqueles tempos, ele escala alguns bons jogadores, como Bazzani, Paulo Borges, Luís Carlos, Tião…

“Sempre tive vontade de mostrar o Corinthians visto da arquibancada. Quando me convidaram para participar da comissão do Centenário, vi que era hora de fazer o livro”, revela o autor. Fez contato com a Editora Gente, mas preferiu ter o seu próprio editor. Contratou Celso Unzelte e o jornalista Carlos Moraes para ajudá-lo a resgatar histórias deliciosas, como a do craque Neco, que “jogava com uma cinta”. Chamado por isso de “carroceiro”, não raro costumava tirar a cinta para bater nos adversários. O profissionalismo ainda era algo distante numa época em que o futebol misturava-se com a várzea, então um grande celeiro de craques.
Na introdução, Goulart homenageia a várzea e seus amigos Flávio La Selva e Alcides de Souza Piva, o Joca (já falecidos), fundadores da Gaviões da Fiel, da qual nunca se afastou. Por isso, a principal torcida corintiana merece destaque no livro, por ter sido a primeira a se manifestar pela abertura política, no final da década de 80, e também contra a “ditadura” reinante no clube. Na contracapa está a “Oraç dos 100 Anos”, que reproduzimos a seguir:

O livro, a oração, imagens desde os tempos da “Democracia” e o autor Antonio Goulart
Ao terminar esta parte da história, queremos Te pedir, Senhor, alguma coisa grande e preciosa para este segundo século de Corinthians
Mas nós não vamos Te pedir tanto isso de títulos, vitórias, copas e honrarias
Cem anos de Corinthians já nos ensinaram que isso não é o mais importante
Nós hoje só queríamos Te pedir o mais importante: que o Corinthians continue sendo para sempre o que tem sido
em nossas vidas: simplesmente o Corinthians, esta misteriosa fraternidade que nos une, esta inesgotável fidelidade que tudo
enfrenta, este sonho que não se explica, feito que é de várzea e esperança
Isso Te pedimos pela força de São Jorge, nosso padroeiro, em memória de Elisa, nossa madrinha, e em nome dos
milhões de devotos e mártires anônimos que, movidos a fé e sanduíche de pernil, pelos séculos vindouros hão de continuar
lotando os estádios com seus cantos e bandeiras em busca de uma coisa maior e mais luminosa que eles nem sabem direito
o que é, mas que neste mundo não hesitam em chamar: Corinthians
Amém.
Língua citadina
O ex-presidente Vicente Matheus é sempre citado por suas frases folclóricas, mas em muitas ocasiões, repletas de malícia e matreirice, que provocavam a alegria de corintianos ou não. O conselheiro e presidente do Cori, Antonio Roque Citadini, que conviveu com Matheus e muitos outros presidentes do clube, também é lembrado todo dia por suas frases de efeito, que ora causam risos, ora irritação, em corintianos e não corintianos. Parte desse cabedal está no livro Alambrado, recém-lançado por ele pela Algol Editora, como parte das comemorações dos 100 Anos do Sport Club Corinthians Paulista.
“Produzir este livro para mim tem dois sentidos. O primeiro deles refere-se ao Centenário, importante para relembrarmos histórias do clube e de seus ídolos. Em segundo lugar, está a satisfação pessoal de escrever um livro sobre o Corinthians”, afirma o conselheiro, que escreveu anteriormente a biografia Neco, o primeiro ídolo. Alambrado tem 246 páginas, com 32 de imagens, e está sendo vendido a R$ 25,00. Segundo o autor, a obra foi concluída em apenas cinco ou seis meses, pois muitos textos já tinham sido escritos antes. Foi só questão de reeditá-los.

Citadini, entre Hélio Santos e o editor Ary Mascarenhas; abaixo, o livro escrito “por causa do Corinthians”
O livro traz um pouco mais das opiniões de Citadini, que faz questão de lembrar a todo momento, seja na vida pública, seja na pessoal, a sua condição de corintiano. As crônicas, escritas entre 2002 e 2009, tratam desde a fundação do Corinthians até histórias de seus principais ídolos e torcedores ilustres. Diferentemente de Goulart, o autor não se furta de falar de política e opina, inclusive, sobre as parcerias de seu clube nos últimos anos e até sobre os preparativos para a Copa de 2014.
Além de ser implacável com os adversários do Corinthians nos gramados, Citadini, agora no papel de torcedor, dirige suas baterias contra as administrações de seu clube, mesmo aquela da qual participou. A partir do nome, Alambrado, o livro procura romper a barreira entre a arquibancada e o gramado e revelar aos torcedores o cenário futebolístico corintiano e do futebol brasileiro em geral. “Tudo o que escrevi, tudo o que está no livro, está lá por causa do Corinthians”, conclui.
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