Consumir, cair e levantar

por: Margaret Azevedo

Todo cuidado é pouco, quando o crédito facilitado e a imensa variedade de produtos à disposição levam para um consumo desenfreado

Consumir, cair e levantar Sob o domínio da filosofia do consumo a todo custo e do conceito do “ter” em vez do “ser”, a sociedade moderna deixa poucos flancos abertos a práticas como temperança ou compras com parcimônia. Ao contrário, incentiva os gastos, quando proporciona crédito fácil, ocultando o fato de que o dinheiro que chega fácil às mãos vem sempre acompanhado de juros exorbitantes. Por isso, não é de se estranhar os altos índices de individamento e até falência de muitas pessoas que não conseguiram conter o impulso em adquirir um bem que muitas vezes não era necessário.

Consumir é um processo com diversas etapas, no entanto, na maior parte dos casos, é um ato automático e muito rápido. Comprar não implica necessariamente em consumir, assim como consumir não significa abrir a carteira, tanto que é possível passar o dia inteiro sem gastar uma moeda sequer e consumir muita coisa. Sem fazer apolo­gias ou levantar bandeira à sovinice, é razoável ponderar; colocar o pé no freio é um excelente exercício para evitar aquisições insensatas.

Além disso, o consumo consciente está subordinado ao ato da compra, ao uso e ao descarte do produto adquirido. Muitas vezes, levamos o produto para casa, não o usamos e ele fica lá apenas ocupando espaço. Ricardo Oliani, coordenador de jogos e dinâmicas do Instituto Akatu, resume o que significa esse novo paradigma. “É consumir com consciência de seu impacto e voltado à sustentabili­dade da vida no planeta.”

Segundo o coordenador, o consumidor consciente faz algumas perguntas antes de adquirir qualquer produto ou contratar algum serviço. A pessoa busca o equilíbrio entre a sua satisfação pessoal e a sustentabilidade do planeta, lembrando que a sustentabilidade implica em um modelo ambientalmente correto, socialmente justo e economicamente viável.

Atitudes Corretas

Para a pesquisadora Adriana Charoux, do Insti­tuto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), além de estar consciente quanto aos impactos socioambientais de seus hábitos, o consumidor pode adotar novos hábitos que colaborem com o comércio justo, solidário e o desenvolvimento sustentável. “Pequenos gestos, como trocar a lâmpada incandescente pela econômica (espiral ou lead), otimizar o uso da água em casa e no tra­balho, questionar a origem do que se consome. Ligar para serviços de atendimento ao consumi­dor (SACs) e cobrar atitudes sociais e ambientais mais responsáveis junto aos fornecedores são alguns procedimentos que podem ser tomados no dia a dia”, comenta. Consumir, cair e levantar

Apesar de muitas pessoas estarem atentas à refle­xão e à mudança paulatina de comportamento ­Oliani informa que cerca de 90% dos indivíduos estão cientes dessa necessidade, somente 30% agem em prol da causa. “A alteração do com­portamento sempre é mais demorada, mas ela vem ocorrendo de forma positiva”, diz. Avalia também que o acesso à informação está rela­ cionado a escolhas conscientes. Atualmente, as pessoas fazem separação de materiais recicláveis que até pouco tempo tinham um destino comum, o lixo. Desse modo, sustentabilidade, consumo consciente, logística reversa estão deixando de ser apenas expressões corriqueiras, e têm se tor­nado práticas presentes no dia a dia das pessoas, o que há cinco anos seria inimaginável.

De acordo com Adriana, a mudança de atitude do consumidor está diretamente relacionada ao au­mento de instrumentos públicos e privados que o incentivem a exercer sua cidadania. Porém, é preciso cobrar por padrões de produção e consu­mo mais sustentáveis. E isso depende também do consumidor. Por exemplo, ao optar por produtos de uma empresa que utiliza trabalho escravo, o consumidor financia essa prática. Já ao escolher alimentos orgânicos, ele contribui com um setor que não emprega substâncias tóxicas em sua produção e não agride o ambiente.

Bolso saudável

Quando se propõe a diminuir desperdícios e evitar o consumo de supérfluos, o consumidor consciente proporciona a si mesmo sustentabili­dade financeira. Na prática, quando uma pessoa gasta mais do que pode, ela está na contramão da sustentabilidade, conforme Oliani. No entan­to, vale destacar que nem sempre o consumo consciente significa economia. Produtos com preços excessivamente baixos podem estar rela­cionados à exploração de trabalhadores, compra de matéria­prima de origem desconhecida ou sonegação de impostos.

“A maioria das pessoas leva em conta apenas o aspecto financeiro. É preciso avaliar toda a cadeia produtiva. Um produto que não gera impactos ambientais na produção, que minimiza os impac­tos no transporte e na comercialização custa um pouco mais caro, porém, o impacto que ele gera é infinitamente menor do que o outro que custa menos”, compara o representante do Akatu.

Para a pesquisadora do Idec, ao parar para repensar, recusar produtos, reduzir o consumo daquilo que não é necessário, sem falar na re­dução e reciclagem, a pessoa revisita o conceito de suficiência. “Revisitar esse conceito é um ex­celente antídoto para combater o consumismo, que além de milhões de impactos negativos para o ambiente e para a sociedade, pesa no bolso.”

Produtos considerados éticos, hoje em dia, cus­tam mais e se tornam acessíveis a um nicho de mercado muito restrito, ulitizado, que atende a um público com alto poder aquisitivo. Entretan­to, à medida que políticas públicas, já dentro da legislação, forem efetivamente implementadas, o acesso poderá ser maior, segundo Adriana. A legislação sobre merenda escolar para es­ colas públicas no Estado de São Paulo, por exemplo, determina que 30% dos produtos sejam provenientes da agri­cultura familiar, e preferencialmente oriundos do cultivo agroecológico.

Níveis de Consumo

O Instituto Akatu desen­volveu uma escala de con­sumo consciente, com quatro grupos distintos de consumidores: conscientes, comprometidos (ou engajados), iniciantes e indiferentes. O primeiro grupo reúne aqueles que têm a percepção de que seus atos de consumo afetam não só a si próprios, mas também a toda coletividade e as futuras gera­ções. O comprometido percebe que consumo consciente é mais do que apenas uma maneira de economizar recursos, mas ainda não o pratica amplamente. O iniciante é aquele que pratica o consumo consciente pensando apenas em evitar desperdícios. Já o indiferente, como a palavra sugere, ignora todas as práticas de sustentabi­lidade no consumo.

No ano de 2005, a entidade também realizou uma pesquisa com o objetivo de medir o nível de consciência dos consumidores brasileiros e constatou que há diferença entre o perfil do consumo consciente das regiões norte e sul do País, respectivamente menos e mais conscientes. A Região Norte foi a que apresentou o maior percentual de consumidores iniciantes entre todas as regiões (66%); a Sul obteve o menor índice desse segmento de consumidores (45%).

Por outro lado, a Região Sul reuniu o maior percentual de consumidores enga­jados (39%) e conscientes (11%), enquanto a Norte apresentou exatamente o oposto: o menor percentual de engajados (21%). Segun­do o Instituto Akatu, as variações dos resultados da pesquisa demonstram que a região é apenas um dos fatores que influenciam o comporta­mento de consumo consciente, e não o único. Consumir, cair e levantar