Acima do bem e do mal

por: Manoel Dorneles

Como não estamos autorizados a sobrevoar essa rota, temos que tentar a ficha certa, para o nosso bem e o de nossos filhos

Acima do bem e do mal

Já foi bem mais fácil escolher. De um lado do ringue, o bem; do outro, o mal. Ponto. Aqui, os arcanjos de Miguel; lá, os comandados de Lúcifer; ali, a obediência cega ao Criador, do outro lado da cerca, a serpente traiçoeira… Bastou uma pequena mordida na maçã para o caldo desandar. Vieram os genéricos. Pior ainda, os desvirtuados. O bem Denorex, o que parece, mas não é; o bem com pequenos desvios de conduta. O mal, para ficar “bem na fita”, camuflou-se de todas as formas, chegou ao úmulo de se vestir com pele de cordeiro.

“Tenha cuidado com os falsos profetas que vêm a você em pele de cordeiro, mas que no fundo são lobos vorazes”, diziam os “Evangelhos”. Ao mesmo tempo em que vemos o bem se omitir, reconhecemos a dificuldade em identificar o mal em cada esquina. Será o vendedor de doces, que gentilmente oferece uma bala na saída da escola? Aconselhamos nossos filhos a não aceitarem nada mas se é doce não é do bem? E quando alguém solidário, estende o maço de cigarros? Cigarro é do mal, mas a curiosidade é o que, afinal?

Faltam-nos ferramentas para escolher entre o bem e o mal, como aconselha a música. Por outro lado, somos bombardeados por equipamentos capazes de nos tolher parte da visão do mundo ou reduzir nossa audição. Temos dificuldades, por exemplo, em afastar nossos filhos do computador, por onde entra grande parte do bem, necessário para a formação deles, e do mal, maquiado o suficiente para seduzi-los. Nesse universo, quantas vezes o bem pode parecer chocho, enquanto o mal vem sempre “com emoção”.

Infelizmente, não podemos mais recorrer à inocência de nossas infâncias, quando o bem e o mal seguiam estradas paralelas, e muito bem sinalizadas. Quem já passou dos 40 sabe muito bem que a educação rígida de “antigamente”, aliada ao ensino religioso, nos dava poucas margens de manobras. Bem ou mal começamos a balbuciar as primeiras palavras e já nos fazem saber os limites entre o bem e o mal. Minha mãe, que Deus a tenha, me prevenia, vejam só, sobre a casa onde se reuniam os maçons de minha cidade. Era do mal, segundo ela. Toca ao infeliz aqui, que todo dia tinha que fazer o trajeto para comprar pão e leite, mudar de calçada, sempre que avistava a “tenebrosa” construção.

Cedo descobri que os maçons, assim como os kardecistas (outro alvo de minha mãe) participavam de várias obras beneficentes na região, logo não podia ser do mal quem faz o bem. Naquela época, não sei se tem relação, mas sem a parafernália eletrônica de hoje, havia bem menos tentações. No máximo, um pé de goiaba ou manga do outro lado do muro do vizinho ou no caminho da escola. Era só escalar e se lambuzar à vontade. Mal, que nada; saíamos de lá, quase, com a sensação do dever cumprido – se não fôssemos nós, da turma da manhã, seria o pessoal da turma da tarde.

Mal também era cabular aula para nadar no rio, que passava na entrada da cidade. O calor do início ou do final do ano levava a cada dia grupos de quatro ou cinco para o local, mas houve um dia, quando metade da minha classe teve a mesma ideia. A outra metade eram as meninas. E não é que a diretora desconfiou e, a bordo de seu velho fusca, deu um flagra em todo mundo? Molhados mesmo, tivemos que voltar para a escola, onde, além do sermão, levamos uma advertência por escrito, que precisava ser assinada em casa. Nem precisa dizer que apanhei feito gente grande. Foi muito mal para o meu lombo, mas para o meu bem, como bem sentenciou minha mãe