O que é fundamental
Competência é uma exigência básica para quem busca um emprego, mas ser atraente fisicamente é um requisito cada vez mais valorizado
Acredite se quiser, mas pesquisa realizada recentemente pela Universidade de Yale, em Connecticut (EUA), constatou que os entrevistados menos atraentes do ponto de vista físico ganhavam em média 10% a menos do que aqueles considerados mais belos. Ou seja, também no trabalho a “beleza é fundamental”, como dizia o poeta Vinicius. O Brasil parece ter-se antecipado ao tema, tanto que em 9 de janeiro de 1998, lei municipal paulistana “igualou” candidatos feios e bonitos. Proibia anúncios de seleção que exigiam boa aparência dos candidatos.
“Politicamente incorreto”, o requisito “boa aparência” pode ter desaparecido dos anúncios de emprego, mas não do ideário dos recrutadores de recursos humanos, principalmente em atividades ligadas à moda e beleza e aos eventos promocionais e de entretenimento. A constatação é de Angela Souza, diretora de desenvolvimento humano e organizacional, para quem, nessas situações, enquadrar-se em algum padrão de beleza e comportamento é uma norma implícita, porém, muito disseminada e aceita.
“Em um anúncio para recepcionistas de eventos não estará explícito que as moças e os rapazes devam ser altos e bonitos, além de possuí rem as experiências, os conhecimentos e as habilidades requeridas. Mas duvido que os baixinhos, os gordinhos e os menos belos se candidatem. É uma regra não escrita”, aponta a consultora. Não é fácil definir o conceito de beleza, porém, mesmo em ambientes corporativos, cujo negócio não está ligado a essas atividades, a boa aparência também é importante.
Nesse caso, é exigido, por exemplo, cabelo, pele e unhas saudáveis, corpo emoldurado pelas roupas; calçados e acessórios adequados ao ambiente e ao momento. “A aparência pessoal sempre foi importante, mas agora é de mais valia para a empregabilidade. É difícil definir o que é beleza, pois esse é um conceito elástico, sujeito a diversas concepções. Hoje, boa aparência está relacionada à saúde e disposição física. Para as empresas, isso se traduz em produtividade”, ressalta Denise Bernuzzi Santa’Ana, professora livre-docente da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).
Entrevista
Na opinião de Angela, beleza nos dias de hoje é uma qualidade que se busca deliberadamente. Nesse aspecto, não somente a beleza física, mas a implícita na demonstração de cultura e inteligência, em uma fala agradável e articulada. E também na expressão da verdade com generosidade e elegância, no domínio de um conhecimento ou competência técnica ou emocional. A pessoa bonita, segundo ela, inspira algo bom, com gestos e postura graciosos. Ao falar ou fazer algo revela espírito, cultura, inteligência, generosidade, elegância e sabedoria.
Diante do belo, do gracioso, jovial, suave, agradável e harmonioso cria-se uma atmosfera de boa vontade e empatia. Mas isso não significa, por exemplo, numa entrevista, que a vaga está “ganha”. “A percepção de ‘pessoa bonita’ transcende aquilo a que se costuma denominar, comumente, de ‘mulher bonita’ ou ‘homem bonito’ e que tem a ver com ‘poder de atração’, rimando com ‘corpão’, malhação, coxão e ‘armas de sedução’”, dispara a diretora. Ela diz que os recrutadores não são super-homens ou supermulheres imunes às emoções que a presença do belo suscita. Mas os bem preparados são capazes de manter a objetividade e escolher um candidato avaliando as competências, habilidades e atitudes necessárias ao trabalho que irá realizar.
O fato de serem privilegiados em atributos físicos, não isenta os belos do fracasso, da insegurança e das dores existenciais e emocionais. Em alguns casos, eles não só ficam inseguros nos empregos, como têm receio de que suas conquistas profissionais sejam associadas à aparência física e não à competência. “Temem demonstrar que a beleza os poupa do esforço de estudar, aprender e mostrar trabalho. Em outros casos, os belos, nem tão inseguros e éticos, fazem o que o outro grupo repudia, usam a beleza para tirar vantagem. Os menos belos também não estão isentos de comportamentos pouco edificantes no trabalho. Nas empresas sérias, os belos e os não belos descobrem que apenas a autoconfiança advinda da competência se sustenta ao longo do tempo”, frisa Angela.
Empecilho
Se beleza é posta na mesa, em alguns casos ela atrapalha o candidato. Os belos são alvos de preconceito tanto quanto os não belos. “Conheço casos em que mulheres recrutadoras barram as candidatas muito bonitas. Em parte por preconceito, por achar que a beleza pode provocar distrações (dos admiradores da beleza) no ambiente de trabalho, e em parte por inveja”, conta Angela. Em outros casos, imagina-se que alguém tão belo não pode ser tão competente e comprometido. E há o extremo oposto, em que homens e mulheres recrutadores se deixam comover pela beleza e não dão a devida ênfase às qualidades intelectuais, morais e às competências técnicas e comportamentais.
Vale destacar que a beleza de uma pessoa não esconde a sua falta de preparo para aquilo a que se propõe, o que pode pôr em risco até a sua reputação profissional. O incompetente, belo ou feio, não sobrevive numa disputa pelos melhores empregos e oportunidades do mercado. “Nunca foi fácil! Nem nos romances mais açucarados do século 19, cheios de maquiavelismo e ardis. “Ninguém consegue enganar a todos, todo o tempo’, conforme o ditado. Aparência sem essência tem prazo de validade, que é cada vez mais curto, mesmo que se passe quatro horas por dia na academia, duas no cabeleireiro…”, analisa a diretora.
De acordo com Denise, da PUC-SP, pessoas exóticas ou diferentes acabam ficando para trás, diante da relevância dada ao padrão de beleza exigido. Segundo ela, houve uma globalização e padronização no modelo ideal de mulher após os anos 60. A mulher tem de ser longilínea, ou seja, de pernas longas, pele rigorosamente lisa, característica firmada nos últimos anos, e com cabelos que não sejam “rebeldes”.
No caso dos homens, o rigor é menor, mas existem alguns padrões que persistem desde o final do século 19, por exemplo, ombros largos e alta estatura. “O ombro largo remete ao esporte. Não é à toa que muitos homens querem aumentar o bíceps. Essa região simbolicamente está relacionada à capacidade de ‘abraçar’ o mundo, sugere destemor. E destemor combina com virilidade. Quem tem mais estatura, teoricamente, é mais veloz”, diz a professora.
Conforme Angela, a imagem de um funcionário corresponde à da empresa em que ele atua. Daí a preocupação no recrutamento em selecionar candidatos que partilhem valores, isto é, pessoas que tenham identificação com os ideais da empresa. Da mesma forma que “o cachorro é a cara do dono”, uma pessoa desmazelada, arrogante, incompetente, desonesta, desagradável ou fracassada – ou o contrário de tudo isso – “reflete” sua família, a educação que recebeu em casa. Quando trabalha, pensa-se que ela reflete quem a contratou, concluindo-se que isso pode ser expressado na aparência e no comportamento, mesmo fora da empresa.
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Índice da Edição 230clique
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