Diante do inevitável
Considerações em torno de um filme e a dura constatação de que tudo o que desce sobe ou vice-versa
No excelente e comovente filme “Antes de partir”, os personagens interpretados por Morgan Freeman e Jack Nicholson são dois pacientes terminais de um hospital, que decidem viver algumas experiências marcantes antes de irem embora deste mundo. O de Nicholson é rico, solitário e rabugento, aliás, ele é o dono do hospital; enquanto o de Freeman é pobre, culto, ligado à família. A muito custo aceita a ideia do parceiro de viver suas aventuras, por exemplo, pular de paraquedas, dirigir em alta velocidade, rir até chorar. Neste último caso, ao revelar a sua predileção pelo café indonésio Kopi Lwak, o mais caro do mundo, o milionário é surpreendido pelos conhecimentos do amigo. Fica sabendo que o tal café é elaborado a partir das fezes do civeta, um primo do gambá, que vive nas ilhas de Java e Sumatra. Ele come os frutos do cafeeiro, que passam “quase que intactos” pelo seu sistema digestivo, sendo recolhidos pelos produtores. “Are you shitting me?”, resmunga o personagem de Nicholson, ao que o outro responde “I am not, but that animal is” (Eu não estou fazendo cocô em você, mas aquele animal, sim!), o que leva ambos a rirem até chorar.
Enquanto escrevo sobre o filme, observo em cima da minha mesa uma foto de trecho da milenar Muralha da China e sobre ela este redator, todo pimpão. Não se trata de montagem, eu estava realmente lá. Foi há dez anos e posso lhes garantir que nenhuma foto, nenhum filme ou documentário superam a sensação de ter caminhado uns dois quilômetros sobre esse monumento milenar. Guardadas as devidas proporções, ouso dizer que, pelo menos uma das aventuras do meu “antes de partir” eu já vivi. Os outrora temidos mongóis, motivos da construção da Muralha pelos chineses, ainda estão por lá, agora integrados à paisagem. Moradores da chamada “Mongólia Interior”, província chinesa, eles são guias ou usam seus cavalos e camelos para levar os turistas até o muro, que corre sobre as montanhas. Puxo pela memória atrás de novas aventuras para abater de minha listagem. Já participei de jantar a bordo de um barco, ancorado ao largo da ilha de Saint Honoré (onde teria sido prisioneiro o “Máscara de Ferro”, do romance de Dumas); naveguei nove dias sobre o Rio Amazonas; sobrevoei o Deserto de Nazca e seus desenhos misteriosos, no Peru. No extremo da América do Sul, em frente de um dos gigantescos glaciares chilenos, tomei uísque com gelo, segundo alguns, de mais de 200 mil anos.
Ainda acho que posso e devo fazer mais, por exemplo, pular de paraquedas. Amiga minha gostaria de ler todos os livros de sua biblioteca (eu também). Alguns brasileiros não querem morrer, antes de rever sua terrinha natal, de onde saíram premidos pela seca, outros ainda sonham com a casa própria; e há aqueles que já se dariam satisfeitos com um bom prato de comida. Evidentemente há sonhos mais complicados de serem concretizados, antes de se bater as botas, como namorar a Gisele Bünchen, ou ganhar sozinho na megasena, mas aí quem é que iria querer morrer? Quer ver outros sonhos irrealizáveis? Torcedores do pernambucano Íbis gostariam de ver seu time campeão brasileiro; é provável que irão embora sem que isso se concretize. Pior o caso de milhões de aficionados de um dos maiores times brasileiros que, pelo andar da carruagem, também não verão seu time campeão daquele importante torneio continental, antes de partirem… Como disse São Pedro, ao ser indagado pelo presidente do dito clube, se o título viria um dia: “Não na minha gestão!”
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Índice da Edição 230clique
- Diante do inevitável
- Com as próprias mãos
- Espelho, espelho meu
- O que é fundamental
- Dias e Noites das Arábias
- A Mulher Que Serve
- De Vento em Popa
