A Mulher Que Serve
Dona Therezinha é a doula ou o anjo que, nos momentos pré, durante e após o parto, permanece ao lado do leito da gestante
Vem do berço a maternidade, o instinto protetor da mulher prestes a dar à luz um bebê, independentemente de sua idade ou situação social. Na hora agá, no entanto, quem carece de proteção e apoio é justamente essa mãe, insegura quanto ao parto, à sua nova condição e, principalmente, ao pequeno ser que está trazendo ao mundo. É neste momento que entra em ação a doula, palavra grega que define a “mulher que serve” ou facilitadoras do ato de dar à luz. Pessoas como Therezinha Cardoso Padovan, que já assistiu a mais de mil nascimentos.
É importante destacar que, antes das doulas modernas, era comum no passado as grávidas contarem com a companhia de mulheres mais experientes, no caso, mães, irmãs, tias. Elas não só davam todo o respaldo no momento do parto, como assessoravam a jovem mãe no cuidado da casa e do bebê. À medida que o tempo passou e os procedimentos também passaram a ser realizados em ambientes hospitalares por profissionais da área da saúde, o amparo emocional e físico extinguiu-se. Ficar em um ambiente impessoal, cercada de pessoas desconhecidas, na maioria das vezes suscita na gestante o medo e a insegurança.
Mais que uma companhia, a doula é uma “mãezona” para muitas mulheres. “Doula não é uma profissão, é uma vocação. É preciso ter muito amor para dar, sensibilidade para lidar com a futura mãe e saber encorajá-la”, afirma Therezinha, professora aposentada, mãe de dois filhos, nascidos por meio de parto normal, avó de três adultos e viúva há dez anos. Voluntária há 20 anos, ela atua como doula no Amparo Maternal e também na Associação Cruz Verde, que atende crianças portadoras de paralisia cerebral, ambos em São Paulo.
O trabalho voluntário sempre fez parte da vida de Therezinha, a princípio, ao lado da mãe, e posteriormente, para atender aos familiares e conhecidos que a ela recorriam nos momentos de necessidade. “Eu era doula sem saber que existia esse trabalho. Fiz o curso em 2001, quando houve a formação da primeira turma aqui no Amparo Maternal”, revela. Após o curso, ela passou por um treinamento teórico e prático, quando se habilitou a atuar no Centro de Parto Normal (CPN), que conta com mais de 300 colaboradores e 100 voluntárias, responsáveis por cerca de 8 mil partos anuais.
Inesquecível
Therezinha assegura que, durante esse tempo em que atua como doula, já viu nascer mais de mil bebês. “Hoje, trabalho duas vezes por semana, mas no começo era praticamente todos os dias, com exceção das quartas-feiras, quando ia para a Cruz Verde.” Quando está acompanhando uma parturiente, dedica-se tanto que deixa, muitas vezes, de atender telefonemas ou “esquece” de tomar água e ir ao banheiro. Tem hora para entrar, mas não para sair, tanto que já chegou a deixar o Amparo a uma hora da manhã.
A dedicação da doula não passa despercebida às gestantes. Muitas se lembram dela em datas festivas, encaminham correspondências ou telefonam. “Mencionam que nunca se esqueceram de minha fisionomia”, diz Therezinha. Inclusive, revela ter criado afinidade com uma das assistidas, que deu à luz a um bebê com fissura labiopalatal, má-formação no lábio e no palato, conhecida popularmente como lábio leporino. Ela sempre a coloca a par das cirurgias do filho, e o levou para que a doula o visse. Segundo ela, é algo emocionante, impossível de descrever.
Outra história interessante é a da cigana que não compreendia muito bem o português. “Ela não tinha acompanhante e eu a atendi durante todo o parto. Ao visitá-la no puerpério, vi que estava com mais três pacientes no quarto. Quando entrei, ela começou a falar ‘a minha mama, a minha mama’. Imaginei que a mãe dela estivesse ali, atrás de mim. Quando ela me abraçou e disse às demais que eu havia sido a sua ‘mama’, fiquei bastante emocionada. Muitas se referem a nós como um anjo, que nunca se esquecerão. Isso é algo que não tem preço”, finaliza.
Um Local Digno
Fundado em 1939, o Amparo Maternal, em São Paulo, é considerada a maior maternidade pública da América Latina, com mais de 650 mil nascimentos registrados até o momento – são realizados em média 600 procedimentos mensalmente. A proposta sempre foi de albergar gestantes que não têm um local digno para dar à luz, muitas delas vivendo nas ruas da cidade.
No decorrer dos últimos anos, foram desenvolvidos novos projetos sociais e de formação profissional, entre os quais, se destaca o modelo moderno de assistência ao parto implementado no Centro de Parto Normal (CPN). “O Amparo Maternal se orgulha por esse trabalho exclusivo no Sistema Único de Saúde (SUS). Hoje, alguns hospitais particulares têm adequado essa prática em suas maternidades”, constata Maria Ilze Moreno Piquera, coordenadora do grupo de voluntários e doulas da entidade.
A valorização do ser humano e do momento do nascimento está presente em todas as ações dos profissionais e voluntários que trabalham no local. A aquisição de novos equipamentos e materiais de alta qualidade proporciona mais segurança às pacientes e recém-nascidos, tanto que a entidade foi eleita, no ano passado, uma das melhores maternidades do País em parto normal e humanizado. É considerada referência em saúde da gestante no programa “Oito Objetivos do Milênio, da ONU”.
Motivação
Com capacidade de abrigar 100 gestantes, o Amparo mantém cerca de 60 assistidas por mês. A maioria é encaminhada pela Secretaria Municipal de Assistência Social. Segundo a coordenadora, o perfil das alojadas é bastante homogêneo. “São desde meninas de 12 anos até mulheres com 35. Muitas não têm o convívio familiar.”
Há 29 anos na instituição, Maria Ilze não esconde a motivação que a levou, assim como a grande maioria das doulas, a ser voluntária. “Não lidamos com doenças. O nascimento de uma criança é sempre emocionante. É uma alegria para a família e para nós também.” Cerca de 60 colaboradoras do grupo que coordena atuam no CPN. As demais voluntárias prestam atendimento às alojadas e trabalham no bazar da entidade.
Durante os meses em que permanecem no Amparo, as alojadas desenvolvem atividades que lhes possibilitam, aos poucos, montar o enxoval do bebê. Elas participam de oficinas de corte e costura e de artesanato, que são promovidas por uma empresa patrocinadora do projeto. Além disso, a entidade recebe doações de todos os tipos.
Sobre o trabalho das voluntárias, Maria Ilze afirma que a pessoa interessada em atuar na entidade precisa ter, acima de tudo, comprometimento. “Contamos com a presença e participação delas por um período de quatro horas, uma vez por semana.” Algumas doulas, no entanto, chegam a trabalhar das 6 horas até a meia-noite. Em alguns casos, elas ficam lá a noite toda. “O bebê não escolhe hora para nascer. Às vezes, a doula permanece com a gestante até o nascimento da criança.”
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Índice da Edição 230clique
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- Com as próprias mãos
- Espelho, espelho meu
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- Dias e Noites das Arábias
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- De Vento em Popa
