O grande Cacique Branco

O acervo e a lembrança de Orlando Villas Bôas, um dos nomes mais expressivos da história recente do Brasil, estão à espera de um memorial

O grande Cacique BrancoAfeito a expedições pelas regiões Centro-Oeste e Norte do Brasil, o sertanista Orlando Villas Bôas concluiu sua última excursão na terra, no dia 12 de dezembro de 2002. Cerca de um ano depois, os indígenas das 30 aldeias do Xingu organizaram em sua homenagem um Kuarup, ritual religioso dedicado a caciques, pajés e grandes guerreiros mortos que se destacaram junto à comunidade. Até então, nunca nenhum homem branco tinha recebido tamanha distinção na cerimônia que se propõe em sua origem trazer os mortos de novo à vida. Neste caso, parece que o objetivo foi atingido, pois, decorridos sete anos de sua morte, a viúva Marina Villas Bôas acredita que o marido está imortalizado no acervo reunido por ele ao longo de 61 anos dedicados à defesa da causa indígena. Ela e os filhos, Orlando e Noel, estiveram presentes à homenagem.

Nada mais justo para o homem que, ainda na década de 40, ao lado dos irmãos Claudio e Leonardo, trocou o emprego e a vida pacata da cidade pelo desconhecido mundo da selva amazônica, onde desbravaram mais de 1.500 quilômetros de florestas e rios. Devido a sua personalidade e energia, Orlando liderou a Expedição Roncador-Xingu, e criou, em 1961, com a ajuda do antropólogo Darcy Ribeiro, o Parque Nacional do Xingu. O Parque, sob a sua direção por 10 anos, reúne índios de 16 etnias. Paternalista, ao mesmo tempo em que protegia as tribos contra as ameaças do mundo civilizado, era inflexível sobre o que e quem podia circular pelo local.

Quem reúne todas essas lembranças de Orlando é Marina, nascida em Borborema (SP), que se mudou com a família para a capital quando tinha 8 anos. Graduada em enfermagem, nunca pensou em trabalhar na selva, tanto que em 1963 foi trabalhar no consultório do médico Murilo Vilela, amigo de Orlando. Foi Vilela quem a incentivou a fazer um estágio no Xingu, onde reencontrou Villas Bôas, com quem havia mantido contato apenas profissional. Como enfermeira, ela prestou assistência ao sertanista, que fora acometido pelos acessos de malária. Ao longo da vida, o indigenista teve 253 desses surtos con firmados em exames de laboratório.

O grande Cacique BrancoNa selva, após um dia árduo, Marina costumava jogar cartas ou passear pelas margens dos rios, onde tinha longas conversas com o sertanista. A convivência e amizade acabaram em namoro, que culminou com o casamento, em 1969, seis anos depois. “Morei no Xingu entre 1963 e 1975. Passei as duas gestações no Parque. Só saí em 1970 e 1975, para realizar os partos, que foram de cesarianas”, conta. Com o nascimento do segundo filho, o casal mudou-se para São Paulo. Na sede da Fundação Nacional do Índio (Funai), ela comparecia esporadicamente para prestar atendimento a índios do Xingu.

De sua convivência com esses índios, Marina diz que não se lembra de ter sentido medo ou passado por uma situação de perigo. “Tudo era muito organizado. Eles consideravam os Villas Bôas como parte da família. Chamavam-nos de papai, vovô. Quem estava com eles tinha total segurança.” Apesar dos recursos escassos, ela ressalta que foi gratificante embrenhar-se nas matas e dedicar-se à saúde indígena. Na década de 70, a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconheceu o seu trabalho na redução a zero do índice de mortalidade infantil. “A recompensa da dedicação a essa causa é a satisfação que eu tenho de ter passado anos de minha vida com aqueles povos, de ter sido útil e ter cumprido o meu objetivo”, reitera.

Raízes do Brasil

Apesar do reconhecimento internacional ao trabalho do marido (ele foi indicado duas vezes ao Prêmio Nobel da Paz), Marina entende que as autoridades brasileiras não lhe prestaram as devidas homenagens. Além disso, não existe hoje uma política que contemple as necessidades e reivindicações dos povos indígenas. Com a ajuda dos filhos, ela está trabalhando na criação do Memorial Orlando Villas Bôas, que deverá ficar pronto até 2012, dentro do Parque que leva o nome do sertanista, na antiga Usina de Compostagem da Vila Leopoldina, em São Paulo. Na sua opinião, não se trata apenas de preservar a memória de seu marido, mas parte da história e das raízes do Brasil, coisas que não podem ser esquecidas.

Noel Villas Bôas, 34 anos, não cresceu entre os indiozinhos, ao contrário de seu irmão mais velho, Orlando Filho, que passou os quatro primeiros anos de sua vida no Xingu, mas conhece a fundo o projeto do memorial. “Só de cultura material, peças de artesanato no caso, são cerca de 1.200. O número é um pouco maior do que o acervo do Museu Rondon, localizado em Mato Grosso”, relata. Também fazem parte do acervo registros que Orlando recolheu desde a década de 40 até o seu falecimento. São anotações de campo, diários, boletins de rádio, que eram transmitidos em cadeia nacional pelo Repórter Esso, fotografias, filmes etc. “Quando o mosquito do índio pica uma pessoa, dificilmente há cura. Infelizmente, quando eu nasci, meu irmão já estava em idade escolar e minha mãe decidiu voltar para São Paulo”, lamenta.

O grande Cacique BrancoNas férias, enquanto a maioria dos colegas viajava para outros lugares do País, sua família embarcava para o Xingu. “Era como se fôssemos reencontrar parte da família”, recorda. Formado em Filosofia e Direito, Noel procura manter os laços com o Xingu, embora reconheça que seu trabalho é bastante diferente do de seus pais e tios. “O trabalho deles foi de estabelecer contato com diversas etnias, de explorar territórios, algo inédito. Foi estabelecido um vínculo duradouro.” Segundo ele, por serem vistos como parte da família, os índios pedem o apoio no que diz respeito à análise de políticas indigenistas ou de qualquer outra coisa da qual não tenham total conhecimento.

O caçula de Orlando e Marina lembra que o Memorial não será um simples abrigo, mas um espaço com todas as condições para preservar o acervo pertencente à família. “A ideia é de que ele seja um centro de cultura indígena, que terá como ponto de partida o trabalho dos irmãos Villas Bôas. O propósito é reunir a produção intelectual sertanista de outros Estados do Brasil”, expõe. A exemplo de outros espólios, o da família Villas Bôas não está imune à deteorioração. É necessário armazenar o material de forma adequada, controlando a umidade e a temperatura, o que é impraticável em uma casa. “Parte do material tem praticamente 70 anos. Por exemplo, há cartas antigas do Marechal Rondon para o meu pai. O papel vai envelhecendo, torna-se quebradiço. Além disso, a arte plumária indígena sofre bastante com a ação do tempo”, revela Noel. Segundo ele, é preciso brecar essa deterioração, principalmente de peças que estão catalogadas e são utilizadas em exposições. “Muitos artigos nós sabemos quando foi feito, a etnia e até o índio que fez”. A organização de toda a coleção será demorada e só será concluída após o término do Memorial. “Não faz sentido catalogá-la, recuperá-la e mantê-la aqui (em sua casa) nas mesmas condições”, finaliza, lembrando que nesse processo contou com a ajuda de profissionais de arqueologia, antropologia e dos próprios índios do Xingu.