Não era primeiro de Abril

por: Manoel Dorneles

Era uma vez um homem bom, puro e gentil, que se deixava enganar, para alegrar um bando de moleques desocupados

Não era primeiro de AbrilTinha coisa mais divertida que passar trote no tio Bié? A cara que ele fazia, quando percebia o logro, era muito engraçada… Primeiro de Abril, então, era uma beleza; ele caía em todos. Tio Bié (corruptela de Gabriel, “Gabrié” lá na roça, que virou “Bié”), irmão mais velho da minha mãe, era daqueles fazendeiros das antigas. Tinha muita terra, quase toda improdutiva. Nos dias de hoje, seria um verdadeiro parque de diversões para a turma do MST. Não produzia porque não precisava, porque desconhecia qualquer técnica agrícola mais moderna, porque era “mão de vaca” mesmo. “Magina se vou mexer no meu dinheirinho lá no banco pra comprá essas tranqueiras; e se não dá certo?” Sobrevivia do pequeno cafezal “lá no arto”, como dizia apontando com o queixo o morro nos fundos da fazenda, do leite de meia dúzia de vaquinhas, dos franguinhos no terreiro e da porcada no chiqueiro. Tinha também a horta malcuidada e o pomar que crescia ao Deus dará. Quando estava animado, cortava uma varinha de bambu, catava algumas minhocas e ia pescar lambari e bagre no ribeirão. A gente ia junto, claro. Fingia que ia pescar também, mas o que mais fazíamos era dar risada da cara dele, principalmente, quando pulávamos na água e espantávamos os peixes. “Seus muleque fi duma égua; se pego vocês!” Ele nunca pegava, nem nós, nem peixes…

Falei do Primeiro de Abril, me lembrei de sua vaca preferida. Após o almoço, ali pelas onze da manhã, como é costume na roça, está ele estendido na rede da varanda, quando o Tonico, filho da tia Lia, grita: “Tio, os gaviões estão fazendo um banquete da ‘Faceira’ debaixo da figueira!” Nem o Billy the Kid seria páreo, fosse num filme de faroeste. Quase ao mesmo tempo, ele despencou da rede, apanhou a cartucheira e saiu correndo arrastando as botinas rumo à velha figueira, perto da porteira de entrada da fazenda. Não demorou muito para descobrir a farsa. Todo mundo que é do campo sabe que gaviões jamais iriam atacar um animal daquele porte. Enquanto isso, a “Faceira”, fazendo jus ao nome, pastava e abanava o rabo do outro lado do rio. E nós, “moleques dus inferno”, encarapitados no alto da figueira, gritávamos a plenos pulmões: “Primeiro de Abril, Primeiro de Abri!”. Fosse ele um sujeito do mal, teria apontado a espingarda para o alto e disparado (bem que merecíamos), mas não. Fez a cara de sempre, um misto de braveza, desapontamento, bonomia, de que só ele era capaz, enquanto morríamos de rir.

Doutra feita, “matamos” o cavalo dele, o “Pratão”. O nome não fazia nenhuma alusão ao filósofo, mas à cor meio prateada, meio cinza, da pelagem do animal. Tivemos que escondê-lo num sítio vizinho, pois ele não saía de perto da casa. Quando, aos gritos, demos a notícia de que fora picado por uma cobra, logo cedo no primeiro de abril, tio Bié quase teve um colapso cardíaco, como se dizia então. Pensamos que ele ia morrer. Queria ir até o pasto ver “Pratão”, mas as pernas não ajudavam. Ficamos com medo, resistimos até o segundo copo d’água com açúcar, e decretamos o “Primeiro de Abril”. Apesar dos palavrões e das ameaças, não precisamos correr muito, pois ele ainda estava meio debilitado pelo susto. Pela primeira vez, em anos, cogitamos de que daquela vez haveria troco… Cerca de dois meses depois, fomos acordados no meio da noite pelos gritos da tia Joana. Tio Bié acabara de se despedir desta vida, com sua cara enfezada, com sua bonomia, com seu coração que mal cabia dentro do peito. Desta vez, não era trote! Passamos meses remoendo o remorso, a indagar se era mesmo a hora dele ou se apressamos a sua viagem, com as nossas brincadeiras sem graça. Só sei dizer que, meses depois, minha tia mudou-se para a cidade e nós, “muleques fi duma égua”, nunca mais voltamos à fazenda…