Hoje só Amanhã!
Nunca é tarde para se dedicar a uma segunda carreira, principalmente, nestes tempos em que aposentadoria nem sempre combina com qualidade de vida
Entre o “conforto” da aposentadoria ou seguir uma segunda carreira, após os 50, 60 anos, há muita gente nos dias de hoje que prefere a segunda opção. A motivação, em geral, decorre do crescimento da expectativa de vida e, em muitos casos, da escolha precoce por uma profissão, que provocou algum tipo de arrependimento tardio. Alguém pode simplificar, entretanto, dizendo que “a pessoa troca de área porque fracassou”, mas são cada vez maiores os casos de sucesso profissional. Ou seja, de felizardos que se realizam duplamente, tanto no antes, quanto no pós-carreira.
É evidente que essa realidade só é possível, porque viver mais anos no mundo, e também no Brasil, deixou de ser um sonho ou ficção e passou a ser um fato constatado a cada censo demográfico. No Brasil, que figura no 75º lugar no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), há atualmente 31,8 milhões de pessoas com mais de 60 anos, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Mas a proposta de continuar produtivo após os 50, 60 ou 70 anos só é viável àqueles que não sucumbem, por exemplo, à depressão ou há outros problemas de ordem física ou mental. “As pessoas ainda não entenderam que o período da aposentadoria acabou, morreu”, declara o consultor de empresas Julio Sergio Cardozo, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e autor do livro O melhor vem depois. Desvendando o enigma da longevidade, em coautoria com a jornalista Andrea Giardino.
A vida biológica está cada vez mais longa, enquanto a vida profissional está cada vez mais curta, conforme o consultor. É dele também a afirmação de que longevidade não significa levar mais tempo para morrer. Mas viver muito mais tempo com felicidade e amor no coração. E para isso é preciso planejamento.
Depois da “festa”
Da mesma forma que alguns pais pensam no futuro de seus filhos, antes mesmo do nascimento, é aconselhável planejar para o pós-carreira, quando ainda se debuta no mercado de trabalho. “Esse é o momento ideal. Deve-se projetar para o futuro os desejos e as ações necessárias para que eles se tornem realidade”, enfatiza Cardozo.
Na avaliação do consultor, é preciso estar preparado para o dia em que se perde o sobrenome corporativo. Apenas aqueles que morrem de uma doença incurável, vítimas de acidentes ou outras circunstâncias violentas não passaram por essa experiência. Para ele, essas pessoas nunca deixaram de trabalhar.
Em contrapartida, a grande maioria não está preparada para o momento de parar, e só vão descobrir alguns meses após a “festa” da aposentadoria. “Imaginam que irão desfrutar de uma vida maravilhosa. Não demora seis meses para sentirem que estão sem destino e sem propósitos para viver. Conheço casos emblemáticos, que se tornaram um problema para a família. Algumas pessoas passaram a ser usuárias de drogas, outras tentaram o suicídio.”
Cardozo reconhece que nem sempre é fácil. Inclusive, para aqueles que ainda estão em dúvida sobre qual carreira seguir, aconselha a optar por uma área que dê prazer. “Pesquisas revelam que 40% das pessoas entre 45 e 55 anos não estão contentes com suas profissões. Aliás, nunca é tarde para fazer novas escolhas.” A infelicidade, segundo ele, surge porque muitos optam por funções que garantem alta remuneração, mas se esquecem de que precisam ter satisfação pessoal para se sentirem motivados a desenvolver novos projetos. O pior é que isso tem impacto na produtividade de cada um.
Hora do descarte
Outro problema que pode ocorrer antes do pós-carreira é o do desemprego. Cardozo constata que pessoas à beira dos 50 anos tendem a se considerar velhas para o mercado. Isso quando não são as próprias empresas que começam a descartar seus colaboradores quando eles chegam aos 55 anos. As exceções são os engenheiros da indústria de petróleo e profissionais de programação e tecnologia da informação, cujos passes são disputadíssimos mesmo após os 60 anos.
Aqueles mais otimistas, de acordo com e-mails enviados ao consultor, sequer admitem a remota possibilidade de perderem seus postos de trabalho. Acreditam que se isso ocorrer, conseguirão se recolocar rapidamente. Segundo Cardozo, o fato é que os empregos formais, com regime celetista, estão cada vez mais escassos. Caso a pessoa queira uma condição melhor de trabalho, ela tenta se empregar em uma multinacional, se submete a concurso público ou aceita trabalhar como pessoa jurídica.
O surgimento de novas tecnologias também causa cortes de postos de trabalho. “É um caminho sem volta. Muitas profissões estão sendo reinventadas”, observa o consultor. Por meio de seu livro, ele pretende despertar as pessoas para a possibilidade de cada um se tornar o CEO de sua própria carreira. “Existe ‘vida’, após a vida profissional. Mas não é possível pensar nisso quando a realidade bate na porta. A pessoa deve conduzir o barco da sua vida, não pode ficar à mercê do destino.”
Poupar pra quê?
Um equívoco frequente relacionado ao planejamento pós-carreira é o de acumular uma reserva financeira. Na opinião de Cardozo, de nada adianta, no futuro, uma pessoa com dinheiro no bolso, mas infeliz. “Claro que poupar visando o futuro é importante, porém, existem outros pilares além do dinheiro. Entre eles, cuidar da saúde e enfrentar os desafios do envelhecimento.” É essencial também cultivar o relacionamento com os familiares e dividir as atenções entre a vida corporativa, cuidando da carreira, sempre de olho no pós-carreira. A aposentadoria só vai ocorrer de fato quando a pessoa morrer, pois sempre há o que fazer.
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