Exercício Mastigatório

por: Margarete Azevedo

Comer é importante, mas sentir o sabor do alimento e prepará-lo para facilitar o trabalho do aparelho digestivo é uma questão de sobrevivência e saúde.

Exercício MastigatórioFicou lá atrás, esquecido no baú da nossa infância, o conselho materno que dizia: “Antes de engolir, mastigue o alimento pelo menos 20 vezes!” Crescemos, viramos adultos e, na pressa do dia a dia, quantas vezes não engolimos a comida, sem sequer sentir o seu sabor? Ignoramos, inclusive, os dados científicos mais do que comprovados de que o ato da mastigação diminui o trabalho mecânico do estômago de esmagar os alimentos. Nós, e a maioria das pessoas, desconhecemos também que o ato de bem mastigar aprimora os reflexos físicos e até mentais. Por exemplo, acredita-se que a mastigação pode prevenir a demência senil devido à manutenção de um adequado fluxo sanguíneo cerebral.

Felizmente, no entanto, o ato de mastigar corretamente vem sendo resgatado, inclusive, com a criação da Escola da Mastigação, um método de treinamento cognitivo comportamental implantado no Lapinha Clínica SPA, município de Lapa (PR). A ideia é de que a pessoa construa com o alimento uma relação de prazer e de alegria, e tenha percepção do que é comer de forma equilibrada. “Apesar de aparentemente banal, trata-se de um verdadeiro ritual que envolve uma preparação e um método para que seja realizado de maneira completa e eficiente”, descreve o nutrólogo Claudio Barbosa, também acupunturista e homeopata, integrante do corpo clínico do SPA.

Segundo o especialista, o ser humano não está adaptado geneticamente para enfrentar os excessos da gastronomia moderna, pois o homem evoluiu de uma dieta crudívora para uma onívora. Hoje ele come de tudo, mas, por milhares de anos, a alimentação era pouca e simples. Não havia manipulação e os alimentos eram ingeridos crus, uma vez que o fogo só apareceu há 500 mil anos. Antes disso, o ser humano era obrigado a mastigar – e muito – porque apenas tinha à disposição carnes e sementes cruas, além de raízes e frutas.

Saciedade tardia

Em paralelo ao avanço tecnológico, há cerca de 10 mil anos, descobriram o valor dos cereais e com isso o seu cozimento e assadura. “Quando avaliamos a nossa genética, através da análise do tubo digestivo e das arcadas dentárias, constatamos que somos realmente onívoros, quer dizer, podemos comer de tudo conforme as tolerâncias individuais”, explica Barbosa. Segundo ele, as pessoas não só estão mastigando mal, mas comendo também alimentos pastosos, muitas vezes, de qualidade duvidosa e hipercalóricos.

A constatação do nutrólogo é de que, à medida que a densidade calórica dos alimentos vai aumentando na história da evolução, o intestino deveria diminuir de tamanho, porém, não é isso o que ocorre. Hoje, as pessoas comem mais, por isso o alimento é rapidamente absorvido, e a saciedade se torna tardia. Os efeitos disso podem ser verificados nos altos índices de sobrepeso e na síndrome metabólica, uma doença da civilização moderna, associada à obesidade. Ela é resultado da alimentação inadequada e do sedentarismo.

Barbosa admite que é uma tarefa difícil ensinar as pessoas a mastigar adequadamente em um ambiente obesogênico, onde tudo é feito às pressas, com grande apelo ao consumo, inclusive, gastronômico. “Esse é o desafio da medicina no século 21. Por meio da educação em saúde, conseguir sensibilizar as pessoas que se elas não fizerem a sua parte não há SPA, medicina, cirurgia e remédio de última geração que deem conta da epidemia de obesidade que assola o planeta.”

Relação positiva

Exercício MastigatórioA ideia de uma escola da mastigação é do médico austríaco Franz Xaver Mayr, mas nos dias de hoje, ela é desenvolvida em SPAs europeus como um método de treinamento e de educação multidisciplinar em saúde. Após um período de estudos na Europa, Barbosa a adaptou à realidade brasileira. As clínicas de internação da Europa adotaram inicialmente o método do pão envelhecido com o leite ou iogurte, originalmente criado por Mayr. Segundo o nutrólogo, ele permite uma percepção da mastigação muito melhor do que se a pessoa fizesse com arroz, salada, fruta ou qualquer outro tipo de alimento.

É fundamental, conforme Barbosa, criar uma relação positiva com o alimento. A hora da alimentação deve resgatar o convívio, a solidariedade, o aconchego familiar e não ser um momento de cobranças, críticas e discussões. O ambiente de internação em clínicas de dietética intensiva propicia o espaço e clima favoráveis a esse momento, embora seja possível realizar também a Escola da Mastigação em casa, desde que a pessoa se programe com antecedência. Na sua opinião, quem consegue interiorizar essa disciplina de corpo e alma precisa, após um período de treinamento, de menos alimentos. “Estes pacientes se saciam mais rápido e a saciação perdura mais.”

Para que o treinamento seja de fato interiorizado, a pessoa deve continuar o treino em casa por um tempo apropriado. Apesar de ser considerado simples e fácil, é necessário disciplina para que o exercício se torne um hábito. “Todas as segundas-feiras realizamos a prática da Escola da Mastigação no Lapinha. Utilizamos, como ‘alimento de treino’, o pão francês envelhecido junto com iogurte e leite de vaca ou de soja, para pessoas com intolerância à lactose.” O nutrólogo revela que o treinamento também é proposto com salada crua e molho cremoso à base de iogurte. A prática tem sinalizado que o pãozinho terapêutico envelhecido, por sua consistência borrachenta, é mais eficiente.

Momento prazeroso

Com esse treino, procura-se não só exercitar a mastigação, como também as glândulas salivares para um maior fluxo secretório, além da percepção gustativa. Para que o paciente perceba como deve ser a correta mastigação, o alimento não pode derreter ou dissolver rapidamente na boca, a exemplo de biscoitos e chocolates. “É muito difícil treinar também com alimento líquido-pastoso, porém, é importante que a pessoa tenha percepção de que mesmo o suco, a sopa, o creme, precisam ser revolvidos dentro da boca com a língua para que sejam emulsificados com a saliva”, diz Barbosa. Se não for assim, em vez de tomar 250 ml de sopa, ela acaba sorvendo um litro.

Ao contrário do que diziam nossas mães, o nutrólogo explica que não existe um número exato de mastigações. A quantidade deve ser suficiente para triturar e misturar bem os alimentos. A hora da refeição tem de ser um momento de prazer. A pessoa não deve comer de forma animalesca; embora o homem seja um ser emocional, é também racional. A dedução é de que, se ele desenvolveu faculdades intelectuais que lhe permitiram a sofisticação dos cardápios, a concentração e o aumento da densidade calórica dos alimentos, não há motivos para ele voltar a comer como homem das cavernas.

E para quem imagina que mastigação bem feita ajuda a perder peso, Barbosa conclui: “A mastigação se encaixa dentro do contexto do tratamento cognitivo comportamental da obesidade. Não há emagrecimento sustentável só com remédio, dieta ou ginástica; se não houver esse aspecto do comportamento da emoção é fracasso na certa. Também não adianta mandar o paciente comer devagar se não for construído com ele o ambiente para que isso ocorra. A mastigação voraz e rápida produz ingestão em maior quantidade. É preciso olhar sob esse viés, caso contrário a pessoa cai na cilada da epidemia da obesidade. Ou as pessoas aprendem a comer menos e a se exercitar mais ou então terão que encurtar o intestino.”